A confusão sobre álcool e saúde

Outra semana, outra matéria alegando algum suposto benefícios para a saúde de beber álcool. Parece que realmente queremos acreditar nisso – mas o que as pesquisas realmente mostram e em quem acreditar?

 

O álcool fará você viver mais? Provavelmente não, mas você pode ter visto as matérias sugerindo o contrário – como a sobre como “beber três copos de champagne por semana poderia ajudar a evitar a demência e a doença de Alzheimer”. O champagne como medicamento preventivo? Isso seria interessante.

A matéria acima mencionada, é do tipo de costumamos lembrar, apareceu em 2015, mas foi sobre um estudo publicado em 2013 – variações sobre o tema “espumante aumenta o poder do cérebro” ainda podem ser encontradas em inúmeras publicações online e aparecerem regularmente nas mídias sociais.

Eles referem-se principalmente a um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Reading, na Inglaterra, que descobriu que os ratos fortificados com champagne eram melhores em lembrar como encontrar alimento em uma labirinto do que os ratos que tomavam a bebida sem álcool. No comunicado de imprensa que o acompanha, o professor Jeremy Spencer foi citado dizendo: “Esta pesquisa é emocionante porque ilustra pela primeira vez que o consumo moderado de champanhe tem o potencial de influenciar o funcionamento cognitivo, como a memória.”

Em ratos, isto é, não em pessoas – e se você está lendo isso, você não é um rato. Como o NHS apontou claramente em sua série Behind the Headlines, “um desempenho de labirinto ligeiramente melhor em um pequeno número de ratos não se traduz necessariamente em seres humanos com um risco reduzido de demência ao beber champagne”. Além disso, os ratos bebiam o equivalente ao que seria em humanos, 1,3 pequenos copos de champanhe por semana, não três copos. Por todos os meios beber 1,3 copos por semana, não fará mal a você.

O título “Beber álcool ajuda você a viver mais” continua aparecendo na internet. No início de 2018, eles descobriram os resultados do estudo 90+ que foi apresentado na conferência anual da American Association for the Advacement of Science da Universidade da Califórnia em Irvine, o estudo analisa o envelhecimento cerebral bem-sucedido entre aqueles que atingiram 90 anos de idade, com a pesquisa foi sugerido que o consumo moderado está associado a uma vida mais longa.

Os pesquisadores também publicaram um estudo em 2007, analisando também idosos, que descobriu que aqueles que tomavam duas bebidas alcoólicas por dia (não importava que tipo) tinham um risco de morte reduzido em 15% em comparação com os que não bebiam. A Dra. Claudia Kawas, professora de neurologia e neurobiologia da Universidade da Califórnia, disse na conferencia deste ano: “Não tenho explicação para isso, mas acredito firmemente que beber com moderação está associado à longevidade”.

Ela também disse: “Lembre-se de que eu começo a estudar as pessoas quando elas tem 90 anos. Acho que é muito provável que as pessoas que tem uma ingestão muito excessiva de álcool nas idades mais novas nem cheguem aos 90 anos”.

 

A bebida realmente é boa para você?

Talvez um pouco, em algumas pessoas. Um grande estudo publicado em 2017 no Journal of American College of Cardiology entrevistou 333.000 pessoas sobre seus hábitos de vida e as acompanhou por uma média de oito anos. Descobriu-se que os bebedores leves e moderados (14 ou menos drinques por semana para homens e 7 ou menos para mulheres) tinham cerca de 20% menos probabilidade de morrer por qualquer causa durante o período de acompanhamento do estudo, em comparação aos abstêmios.

Numerosos estudos nas últimas décadas sugerem que os abstêmios de toda a vida podem morrer mais cedo do que os bebedores leves e moderados, mas as razões subjacentes para isso não são claras e são objeto de debate científico continuo. É difícil separar os benefícios do consumo moderado dos outros fatores do estilo de vida, e pode ser que os consumidores moderados tenham rendimentos mais altos e conexões sociais mais fortes, ambos associados a melhor saúde e longevidade. Outros pesquisadores argumentam que os abstêmios podem ter condições de saúde pré-existentes, o que aumenta o risco de morrer cedo.

O estudo acima contornou isso, no entanto, comparando consumidores atuais com abstêmios, para evitar o que eles chamam de “viés de abstenção” e “fenômeno de desistente de doença”. Suas descobertas corroboraram evidências anteriores de que a bebida leve a moderada “pode ser protetora, especialmente para doenças cardiovasculares”. Mas – e é um grande, mas – “beber em excesso tem graves consequências para a saúde, incluindo a morte.

Os autores também observam que uma associação entre mortalidade e consumo de álcool não estabelece uma relação de causa e efeito, ou que não beber é ruim para você.

É importante notar também que, mesmo que o consumo de álcool seja moderado, pode depender do local do corpo. O consumo de álcool está associado a vários tipos de câncer, da orofaringe, da laringe, do esôfago, do fígado, do cólon e do reto, e até mesmo o consumo moderado tem sido consistentemente associado ao aumento do risco de câncer de mama.

Um estudo publicado no ano passado no BMJ sugere que mesmo a ingestão moderada de álcool afeta o cérebro, e não de uma boa maneira. Neste estudo de longo prazo, pesquisadores da Universidade de Oxford e da University College London avaliaram o desempenho cognitivo de 550 homens e mulheres ao longo de 30 anos. Eles então usaram exames de ressonância magnética de seus cérebros para observador o tamanho do hipocampo – a área do cérebro associada à memória. Eles encontraram uma série de indicadores apontando um impacto negativo da bebida no cérebro, incluindo o encolhimento do hipocampo: retração de 35% no lado direito comparado ou hipocampo dos abstêmios, uma retração de 65% entre aqueles que bebiam em média entre 14 e 21 unidades por semana e 77% para aqueles que bebiam 30 ou mais unidades por semana.

A equipe também descobriu que a massa branca (a parte do cérebro que conecta diferentes áreas de massa cinzenta) era de pior qualidade em pessoas que bebiam mais. Eles não encontraram nenhuma evidencia de um efeito protetor pela ingestão de bebidas. Mas a reação ao estudo foi mista, sugerindo que provavelmente devemos ser tão cautelosos com as matérias contra bebidas alcoólicas quanto às em favor.

 

EM POUCAS PALAVRAS:

A ligação entre álcool e saúde é complicada, mas é isso que a ciência nos diz:

– Beber demais traz risco de morte prematura;

– Não há provas de que abster-se vai te matar;

– Há algumas evidencias de que a ingestão leve a moderada pode ter um efeito protetor em seu coração;

– Mas a evidência não é clara o suficiente para sugerir que você comece a beber por motivos de saúde.

 

Basicamente, se você gosta de beber, a velha frase “beba com moderação”, está valendo. Mas isso não atrai cliques nas matérias, não é?




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